sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Testemunho de Irmã comboniana que vive na RD Congo há 37 anos 23 de Fevereiro de 2018

A irmã Maria Celeste Rodrigues, missionária na República Democrática do Congo há 37 anos, afirma que a Jornada de oração e jejum pela Paz convocada hoje pelo Papa Francisco vai ajudar a “alertar” para a realidade no país africano...

A irmã Maria Celeste Rodrigues, que está neste momento na cidade do Porto, em recuperação, espera regressar este ano ao Congo, com vontade de “dar alguns anos a África”

A religiosa que vai celebrar 72 anos no próximo dia 13 de junho, foi para a República Democrática do Congo em 1971 para trabalhar numa missão com os pigmeus, “uma tribo minoritária, ainda muito descriminada”.

Depois de quatro anos neste serviço, dedicou-se ao ensino de Religião e Moral nas escolas secundárias; os últimos quatro anos foram vividos perto de Kinshasa, a capital, onde estava a ter uma “experiência positiva” na casa de formação das Postulantes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O novo rosto da autoridade na vida consagrada - Pe. José Vieira

A comissão organizadora da XXXIII Semana de Estudos da Vida Consagrada que decorreu em Fátima de 10 a 13 de Fevereiro de 2018 sob o tema «Inovar na Vida Consagrada – Para vinho novo, odres novos (Mc 2,22)» convidou o P. José da Silva Vieira, provincial dos combonianos em Portugal e Presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, a desenvolver o tema «O novo rosto da autoridade».

“O novo rosto da autoridade – afirma o missionário comboniano – não se consegue através de uma campanha massiva de cirurgias plásticas já que um grande número de pessoas em autoridade é entrado nos anos. Faz-se, sim, através de um transplante, da cordialidade: os novos corações da autoridade. As consagradas e consagrados em autoridade são desafiados a servir com coração.”

“É este o transplante que Deus propõe ao querer mudar corações petrificados em corações encarnados. O Senhor prometeu pela boca do profeta: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne». Daí que eu gostava de chamar a esta reflexão «Os novos corações da autoridade na vida consagrada»”, diz o P. José da Silva Vieira.

Leai aqui o texto completo.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Delírio em las Vedras!» P. Gonçalo Portocarrero de Almada

A abstinência sexual exigida pela lei de Cristo, não pode ser vista como uma mera proibição, mas como afirmação de um amor maior.

Embora não seja aficionado ao Carnaval, não posso deixar de reconhecer que é um tempo que me é muito proveitoso em termos profissionais. Com efeito, o meu negócio é o pecado – o pecado dos outros, entenda-se! – e não há dúvida de que o Carnaval é época alta para qualquer sacerdote que se preze. Este ano, as expectativas eram ainda melhores, porque o lema do Carnaval de Torres Vedras era muito promissor: ‘Delírio em las Vedras!’
Mas, para minha surpresa, ao folhear o Expresso de 10 de Fevereiro último, o delírio voltou a aparecer, desta feita nas palavras de Frei Bento Domingues: “É um acto da teologia das palavras cruzadas. Um delírio”. Referia-se o ilustre frade dominicano à nota pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa sobre a aplicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e não, como algum incauto leitor poderia supor, ao Carnaval de Torres.
Se ainda o não disse, digo-o agora: sempre tive uma especial simpatia e gratidão pela Ordem dos Pregadores, por razões familiares e por ter estudado vários anos nos dois colégios dominicanos de Lisboa: o de São José, no Restelo, que ainda existe; e o Clenardo, na Rua do Salitre, que já fechou há uns anos. Aliás, foi no São José, onde fiz a infantil, que aprendi, com quatro ou cinco anos, a dura lição da ‘abstinência da carne’: uma vez mordi uma freira que me contrariou, mas foi tal o castigo que – remédio santo! – nunca mais mordi nenhuma religiosa, nem leiga sequer. Sou também um leitor atento das crónicas de Frei Bento Domingues, que nunca me deixam indiferente.
Mas, voltemos ao delírio. Não ao de Torres Vedras, mas ao do Frei Bento, que acha que não faz sentido pedir a um homem e a uma mulher que vivem juntos, mesmo não sendo verdadeiramente casados, que se abstenham dos actos próprios da vida conjugal. A abstinência seria não só antinatural como até impossível e, como é sabido, ninguém está obrigado ao que não é possível. A argumentação até faria algum sentido se todos os cristãos não estivessem obrigados à abstinência: não só os bispos, padres e religiosos, que até fizeram um voto nesse sentido; mas também os casados, excepto em relação ao seu legítimo cônjuge; e os solteiros, em relação a todas as pessoas, sem excepção.
Se fosse moralmente aceitável a relação extraconjugal, ter-se-ia de concluir que poderia ser lícita a violação da fidelidade matrimonial. Quantas vezes? A samaritana, que até não era má rapariga, já ia no sexto companheiro, o que a não impediu de se converter. Mas não consta que Jesus lhe tenha permitido manter aquela generosa colecção de ‘maridos’, nem o parceiro que então tinha e que, pelos vistos, nem isso era (Jo 4, 7-18). Se assim não fosse, o adultério deixaria de ser pecado, como há muito já não é crime.
Cristo, ao absolver a adúltera apanhada em flagrante, exigiu-lhe que não voltasse a pecar (Jo 8, 11). E, se para os judeus piedosos o adultério só se realizava quando havia união carnal entre duas pessoas não casadas legitimamente entre si, Jesus, que não veio abolir a lei mas dar-lhe pleno cumprimento (Mt 5, 17-18), acrescentou que também se pode cometer este pecado mortal por desejo, e até por mero pensamento, se advertido e consentido: “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5, 27-28).
Por outro lado, para além da sexual, outras muitas abstinências há, tanto ou mais importantes, a que estão igualmente obrigados os cristãos por razão da sua fé: a abstinência da mentira, do ódio, da soberba, da avareza, do roubo, da corrupção, do luxo, da inveja, da idolatria, da vingança, da exploração, da gula, da murmuração, etc. Mas, em todos estes casos, bem como no da abstinência sexual, quando exigida pela lei de Cristo, a renúncia não é uma mera proibição repressora, ou inibição castradora, mas afirmação de um amor maior. De forma análoga, uma pessoa apaixonada não entende a fidelidade prometida como um
sacrifício, mas como uma consequência gozosa, mesmo que custosa, desse mesmo amor.
Frei Bento insiste em que, sobre a vida íntima conjugal, só o casal é que sabe: “É o casal que deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!”. E um frade?! Se calhar pode …
Com certeza que, não só nesta matéria mas também em todas as outras, há que respeitar a liberdade das consciências e são sempre os próprios que devem decidir e arcar com a responsabilidade correspondente. Mas a Igreja, nomeadamente através do seu magistério e dos seus pastores, tem o dever de aconselhar os casais, para que estes possam, no expressivo dizer de São Paulo, “participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Também o doente deve ter toda a liberdade de seguir, ou não, as indicações médicas, mas certamente que as receberá com agradecimento, porque sabe que são para o seu bem. Ninguém é obrigado a ser católico, mas a todos se pede, sob pena de hipocrisia, coerência com a fé que livremente se quis professar.
Quando Jesus instituiu a lei da indissolubilidade matrimonial, alguns dos seus discípulos, cientes da dificuldade na sua observância, comentaram: “Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!” (Mt 19, 10). A verdade é que, alguns anos depois, já havia casais cristãos espalhados por todo o império romano, graças também às perseguições de que resultaram tantos mártires. Numa sociedade divorcista e promíscua como era a romana de então (Rm 1, 24-32), onde se consentia a mancebia e até a pedofilia estava bem vista em termos sociais, a fidelidade dos esposos cristãos chamava poderosamente a atenção, embora muitos a vissem como uma perigosa utopia, promovida por uma seita condenada a desaparecer. Foi o contrário que aconteceu: os usos e costumes dos infiéis foram desaparecendo, ante a beleza e a sublimidade moral dos ideais cristãos. Os pagãos diziam, com admiração, daqueles primeiros discípulos de Cristo: “Vede como se amam!” (Tertuliano, Apologeticum, 39, 7).
Também agora, a mensagem cristã é exigente e apenas compreensível e praticável para quem se atreve a viver um amor autêntico. Para os outros, na verdade, só lhes resta mesmo o delírio do Carnaval.

Um dia vai ser proibido ser católico José Manuel Fernandes

As reacções à nota do Patriarca de Lisboa revelaram a incapacidade de ler e compreender o que lá estava escrito e, sobretudo, o desejo de submeter a Igreja à ditadura igualitária dos tempos que correm
Vou começar este texto exactamente como comecei um que escrevi há já oito anos. Mas não faz mal repetir-me. Por isso esclareço que não sou crente. Educado na Fé Católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir a doutrina da Igreja Católica e aquilo que ela recomenda não apenas aos crentes, mais neste caso concreto aos crentes praticantes, pois é isso que está em causa na polémica sobre a Nota Apostólica do Cardeal Patriarca. Mas tem de ser. E tem de ser porque temo que, um dia destes, para se ser católico e procurar viver de acordo com o Catecismoda Igreja vai ser necessário esconder, ou pelo menos disfarçar, a sua Fé — e não preciso de partilhar essa Fé para defender a sua prática em absoluta e total liberdade.
Mas vamos por pontos, de forma naturalmente sintética, pois alguns mereceriam maior aprofundamento. Mas são três notas que não posso deixar de sublinhar.
1. Surpreende-me que boa parte desta discussão, mesmo a que teve como protagonista gente supostamente bem informada (e não apenas a barulheira típica das redes), tenha decorrido sem que a maior parte dos que nela participaram mostrassem ter tido o cuidado de ler atentamente a Nota Pastoral. Ora tratando-se de um tema delicado que divide a própria Igreja Católica, onde se percebe que existem diferentes sensibilidades, a fórmula adoptada pela Nota Pastoral é, ao contrário do que se quis fazer crer, especialmente defensiva. D. Manuel Clemente, mais do que elaborar sobre o sentido do capítulo VIII da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’ – relativo à forma como lidar com os católicos recasados –, preferiu citar longamente e subscrever a abordagem dos bispos de Buenos Aires. Fê-lo de forma tão explicita que procurar eventuais desalinhamentos, como também já vi fazer, é apenas tentar evitar a constatação do inevitável: o bispo de Lisboa foi apressadamente criticado pelos mais zelosos fãs do Papa Francisco (um deles falou mesmo em “delírio mental”) por adoptar uma orientação que esse mesmo Papa Francisco considerou resultar da única interpretação possível da ‘Amoris Laetitia’. Paradoxal mas verdadeiro.
(Já agora note-se também que as críticas à Nota Pastoral dos sectores mais conservadores da Igreja, os que não admitem qualquer mudança, que também existiram de acordo com o testemunho de dois padres — aqui e aqui –, essas foram totalmente invisíveis da comunicação social.)
Se quisermos ser honestos, e discutir seriamente estes temas, então teremos de reconhecer que a novidade relativamente ao caminho aberto pelo Papa Francisco com a ‘Amoris Laetitia’ não está nas recomendações de D. Manuel Clemente, que seguem muito fielmente o guião delineado por Roma. A novidade, em Portugal, estará mais na carta Construir a Casa sobre a Rocha, do arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, que essa sim é mais ousada e muito mais detalhada – mas que por isso mesmo suscitou reações de sinal contrário, até nos Estados Unidos. Ou seja, existe uma pluralidade no interior da Igreja portuguesa, ao mais alto nível, o que é sem dúvida interessante mas pouco considerado.
2. Apesar de serem muitos os sinais de desorientação na forma como se abordam os temas da sexualidade nos dias de hoje – de que são sinais evidentes alguns excessos e desnortes da campanha #MeToo –, a verdade é que é sempre muito tentador atacar o que é sempre descrito como “conservadorismo” da Igreja Católica, essa instituição “retrógrada” que resiste a mudar ao sabor da vontade dos colunistas, das indignações das redes sociais ou do activismo de alguns grupos dissidentes. E nada melhor do que uma recomendação de continência sexual feita por um cardeal para incendiar os espíritos. “Porque insiste a Igreja em meter-se na cama das pessoas?”, pergunta-se de forma indignada.
Na verdade, como já se recordou, não é apenas o catolicismo que se ocupa da moral sexual – todas as grandes religiões o fazem. Valeria a pena discutir por que o fazem, mas esta não é a ocasião, até porque verdadeiramente o que está no documento de D. Manuel Clemente (como no dos bispos de Buenos Aires ou na ‘Amoris Laetitia’) não é, como se pretende fazer crer, uma condenação do sexo. Mais: se quisermos compreender melhor a posição actual da Igreja sobre o amor erótico o documento a ler não é esta exortação apostólica do Papa Francisco, mas a encíclica ‘Deus Caritas Est’, a primeira do papado de Bento XVI.
O que estes documentos que agora discutimos abordam é outra coisa – é a conciliação entre diferentes sacramentos. Imagino que quem nunca teve educação religiosa católica não compreenda sequer o que é um sacramento, mas o dilema que a ‘Amoris Laetitia’ procura enquadrar é o dos católicos que contraíram o sacramento do matrimónio, um sacramento considerado indissolúvel (princípio que nem o Papa Francisco questiona), que depois terminaram o seu casamento e voltaram a casar pela via civil, pelo que estão em falta (ou em “pecado”, essa palavra impronunciável nos dias que correm), e pretendem ter acesso a outros sacramentos, como o da comunhão.
É a contradição entre os deveres impostos para o acesso a certos sacramentos e a violação assumida e vivida de um outro sacramento que cria uma espécie de quadratura do círculo de que seria impossível sair com uma aplicação estrita da doutrina. A evolução da ‘Amoris Laetitia’ é que remete a resolução dessa contradição para quem acompanha directamente os casais, ou seja para o nível de maior proximidade. O que a nota de D. Manuel Clemente, como a do D. Jorge Ortiga, como a dos bispos de Buenos Aires, procura fazer é dar orientações a quem lida directamente com esses casais, e mesmo havendo aproximações com nuances, a verdade é que nenhuma delas é um livro de instruções fechado. A referência à “continência” é apenas um de vários caminhos indicados, neste caso concreto tanto nas dioceses de Lisboa como da capital argentina. A latitude de intervenção dada a quem está no terreno é muito ampla como verificarão os que lerem com cuidado todos os documentos – e é de resto essa latitude que suscita a critica dos sectores mais tradicionalistas.
3. Claro que tudo isto parece estranho num tempo e em sociedades onde as referências morais deixaram de ser importantes. Numa época relativista, onde se valoriza sobretudo o prazer imediato e se exige tudo já – nisto a nossa contemporaneidade infantilizou-se, só parece capaz de alcançar o imediato como uma criança mimada –, tudo o que saia da norma e implique alguma forma de sacrifício é logo visto como uma manifestação de obscurantismo, quando não de opressão. Por isso pouco interessa aos indignados com a Nota Pastoral que ela apenas se dirija apenas aos católicos e, entre os católicos, apenas aos recasados que querem continuar a participar plenamente na sua Igreja. De nada vale recordar que em Portugal ninguém é obrigado a ser católico, que o casamento religioso não impede o divórcio civil, que muito menos se obriga alguém a ir à Missa, a confessar-se ou a comungar. Nada disto interessa, pois aquilo que verdadeiramente interessa é impor à Igreja a norma relativista dos dias que correm. Pior: em muitos meios ser católico, crente (coisa que, volto a recordar, não sou) é facilmente objecto de escárnio, quando não de discriminação. Já estivemos mais longe do dia em que praticar a doutrina da Igreja tenha de ser feito quase às escondidas.
Há também nesta pretensão o tradicional autoritarismo dos iluminados, o inevitável totalitarismo dos que pretendem igualizar tudo em nome do que entendem ser a modernidade ou os direitos que estiverem de momento na moda (também há direitos que passam de modas…). É uma pretensão de desconcertante arrogância num tempo em que não nos faltam sinais de esquizofrenia e confusão, onde tanto encontramos quem mande retirar um quadro clássico de um museu porque mostra jovens nuas como se glorifica a provocação como obra de arte, onde se pretende viver sem limites (ou “tabus”) a libertação sexual mas se quis proibir todo o tipo de piropos, e por aí adiante.
Mas há mais. Há também a velha ideia de que a Igreja só sobreviverá se se “modernizar”, o que significa sempre seguir os sinais dos tempos. Na verdade nenhuma instituição que tenha seguido essa orientação durou muito tempo, pelo que prefiro respeitar a prudência de uma Igreja que está cá há dois mil anos.
O grande escritor G. K. Chesterton notou um dia que “não queremos, como dizem os jornais, uma Igreja que se mova com o Mundo, queremos uma Igreja que mova o Mundo”. Julgo que esta frase sintetiza bem a diferença entre os que olham para a Igreja como olham para um partido político obcecado com as sondagens (nas reacções à Nota Pastoral houve até quem usasse grelhas de análise típicas do comentário político) ou para uma marca comercial obrigada a satisfazer os consumidores, e os que a vêm como uma referência com outras obrigações e, necessariamente, um outro tempo.
De resto chamo a atenção dos mais desatentos para o facto de, mesmo assim, a Igreja se mover – sendo que não se move, nem deveria mover-se, em função apenas do espírito do tempo e da volubilidade das gentes. Ainda bem.

A FAMÍLIA NASCE DE UMA BENÇÃO DIVINA Frei Bento Domingues, O.P.


1. Da religião da tristeza resvalou-se para a tristeza da religião. Os primeiros gestos, palavras e atitudes do Papa Francisco mostraram que era possível virar essa página: a da Igreja e a da sociedade. Não queria fazer nada sem Deus e sem os irmãos. Mas o Deus de que fala e vive não é o da tristeza e da ameaça. Os irmãos convocados não são, apenas, os praticantes dos rituais católicos.

É bem conhecido que, em muito pouco tempo, enviou ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos uma convocatória para levarem o Evangelho da Alegria ao mundo actual. Inscreveu-se, deste modo, no caminho aberto por Jesus de Nazaré, assumido por João XXIII e esboçado no Vaticano II. Entretanto, o mundo mudou e está a mudar com uma velocidade estonteante.

Para Klaus Schwab, entre os muitos e diversificados desafios fascinantes que enfrentamos, o mais intenso e importante é como compreender e definir a nova revolução tecnológica, que implica nada menos do que a transformação de toda a humanidade. Estamos no início de uma revolução que alterará radicalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Na sua escala, amplitude e complexidade, o que considera ser a Quarta Revolução Industrial é diferente de tudo o que a humanidade viveu antes[1].

Se não estamos no paraíso – o mundo é de muito poucos e o sofrimento é de muitos – os impactos positivos desta revolução não podem fazer esquecer os negativos e os desconhecidos. É, no entanto, uma alegria contar com um Papa que, em vez de paralisar as energias dos católicos, lança uma esperança de que, todos juntos, poderemos fazer face aos desafios das loucuras da dominação económica, política, social e religiosa. O poder do Papa é o de acordar o que há de melhor nas pessoas, sejam elas quais forem, e de convocar, crentes e não crentes, para uma mudança radical que, na linguagem da caminhada da Igreja, se chama Quaresma e Ressurreição[2].

2. Está a difundir-se a ideia de que Bergoglio anda a minar as bases da própria sociedade e da história humana, isto é, a destruir a Família. O currículo deste argentino, quando foi eleito Papa, era o de um pastor que conhecia os percursos mais aceites e os mais mal vistos, segundo os critérios de um Direito Canónico pouco especializado no primado do amor e da alegria das pessoas. Por vezes, não se percebia se a instituição matrimonial era para a felicidade das pessoas ou para manter inalterável uma instituição especializada em normas de exclusão. Estava longe da palavra libertadora de Cristo: o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado.

Francisco, consciente das transformações que atingem todas as sociedades e culturas, não se fixou, apenas, na sua longa experiência. Depois de consultar muitos casais, padres, bispos e cardeais, publicou um documento aberto para que todos procurem, a partir do concreto, - e mesmo sabendo a fragilidade de tudo o que é humano - os caminhos que fazem do encontro do homem e da mulher, com toda a família, a experiência da Alegria do Amor[3].

Chamar-lhe um texto da destruição é, simplesmente, ridículo. É, pelo contrário, uma luz à procura de mais luz. Importa encontrar os caminhos que erradiquem as tristezas e as opressões que transformaram a sexualidade – uma bênção divina do amor humano e das suas expressões sexuais – numa solicitação ao pecado. O próprio sacramento do matrimónio foi entendido como um modo de tornar lícita uma união de natureza impura: a união sexual do homem e da mulher[4].

 As dificuldades em concretizar e prosseguir a pastoral aberta pelo Papa Francisco, sobre o acesso dos divorciados recasados aos sacramentos, radica, precisamente, na recusa de aceitar a união sexual como bênção. É evidente que toda a actividade humana, enquanto exercício da liberdade, pode desviar-se e atraiçoar-se. A sexualidade pode ser um exercício de opressão, de violência, de exploração, pecado gravíssimo. Mas propor a um casal a abstinência sexual não é a forma de reconhecer a sexualidade como bênção. No mundo católico, o pecado dos pecados era o que estava ligado ao sexo. O pecado económico, ecológico, racial – veja-se o tráfico humano, a destruição do planeta, a privação de casa, de trabalho, de saúde primária, etc. – nem pecado era!

Por causa de se entender mal um grande sacramento, acabou-se por esquecer a primordial bênção divina da família.

3. É como tal que aparece no Génesis. Nascer numa família é normal desde há muito tempo. Através de uma análise de ADN, pesquisadores coordenados por Wolfgang Haak, da Universidade de Adelaide (Austrália), identificaram quatro corpos como sendo uma mãe, um pai e os seus dois filhos, um de 8 ou 9 anos e outro de 4 ou 5 anos. É uma família com uma idade de 4.600 anos que não casou pela Igreja. Segundo o registro genético molecular já identificado, esta é considerada a família mais antiga no mundo. Seria puro milagre que uma realidade humana com vários modelos, segundo a história dos povos e culturas, fosse uma instituição sem problemas, um casamento de anjos.

A história do cristianismo é marcada por lutas periódicas contra as tentações dualistas: a dos gnósticos, dos maniqueus, dos cátaros. É difícil acreditar num Deus humanado. Que o corpo de Jesus de Nazaré seja corpo de Deus. O corpo é um dom, não uma maldição[5].

Dizem que na Pastoral da Família o tempo de namoro é fundamental. Mas não se pode concluir que os problemas ficam todos resolvidos, de uma vez para sempre, com a celebração do sacramento. Como fazer do casamento um processo de toda a vida?

Creio que nenhum padre, bispo, cardeal ou papa dispõe de uma solução pronta a servir. O melhor é escutar e escutar sempre. Mas sobretudo dar-se conta de que os sacerdotes do casamento são os casais e são eles os mais responsáveis pela Pastoral da Família, presente e futura. Vai ser longo o caminho para vencer o clericalismo.

O humor não faz mal ao amor à família. Em Granada, encontrei um pequeno azulejo com estes dizeres: família só a Sagrada e, mesmo esta, na parede pendurada.

18. 02. 2018



[1] Klaus SChwab, A Quarta Revolução Industrial, LEVOIR em parceria com o PÚBLICO, 2017.
[2] Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018.
[3] Amoris laetitia, Paulus,2016
[4] VV.AA., O enigma da sexualidade, Cadernos ISTA, nº 16, 2003; Francolino Gonçalves, As Mulheres na Bíblia, in Cadernos ISTA, nº 21, 2008, pp.109-159; VV.AA., A Família tem Futuro?, Cadernos ISTA, nº 31, 2015; Matrimónio, in Enciclopedia del Cristianesimo, pp. 455-457.
[5] Cf. Timothy Radcliffe, Na margem do mistério, Paulinas, 2016, pp 81 ss


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

CÂNTICO PARA A QUARESMA - Olindo Marques

Depois do Natal (cântico 106º), temos a Quaresma, tempo de oração e penitência.
Aos meus amigos, esperando que possa ser útil, ofereço o cântico para a Quaresma "Ó meu Deus, meu Salvador" (Anexo). É o 107º (15º pós-Cantate Laudate!).
Como de costume, está com outros gratuitos em:
 
                  http://cantate-laudate.webnode.pt  (ou simplesmente escrever no Google Cantate Laudate )
 
Abraços e uma santa Quaresma que prepare uma feliz Páscoa!
 
Olindo Marques

domingo, 11 de fevereiro de 2018

VICIADO EM BOAS NOTÍCIAS Frei Bento Domingues, O.P.


1. Leio, todos os dias, textos dos Evangelhos. A palavra evangelho é a tradução do grego evangelion. Significa boa notícia. Não é o culto daquela atitude preguiçosa que espera que tudo há-de acabar por dar certo, sem mexer uma palha. Jesus interpretou a sua missão como resposta aos desafios que ia encontrando na sua intervenção pública: eram pedidos de socorro de pessoas afectadas por todo o género de doenças físicas, psíquicas, de exclusão religiosa e social. As mais insólitas e as mais correntes.

Quando se proclama o Evangelho na Celebração da Eucaristia, não é para lembrar o que Jesus fez há mais de dois mil anos. É para dizer à comunidade cristã o que é preciso fazer hoje. Quando usamos as palavras de Jesus na chamada Última Ceia: fazei isto em memória de Mim, não é para cumprir um ritual, mas para intimar os cristãos a continuarem hoje o Evangelho. Uma missa que não dá notícias das transformações que a comunidade realizou na semana anterior e das que se compromete a realizar na semana seguinte, não celebra o Evangelho. As notícias cristãs de há dois mil anos, se não provocarem hoje transformações nas Igrejas ao serviço das alterações que a sociedade precisa, comem e bebem a sua própria condenação, segundo a expressão S. Paulo[i].

A repetição dos textos, só por si, mata a novidade do movimento cristão. Quando não se entra no espírito que animava a vida de Cristo, a repetição não é caminho. Sem a ciência da interpretação estamos sempre resvalar para o fundamentalismo ou para a banalidade. A letra mata, o espírito vivifica.

2. Em Portugal, nas últimas semanas, quanto a notícias boas e más, vivemos situações não totalmente inéditas, mas de intensa confusão. Vicente Jorge Silva para classificar certo tipo de jornalismo, cada vez mais em voga – amplificado pelas redes sociais – e em conexão com os meios judiciários, intitulou a sua coluna Justiça e jornalismo no esgoto[ii]. Quanto a conivências de jornalismo, redes sociais e acusações que deixam os cidadãos sem defesa contra a irresponsabilidade instalada por lei, Miguel Sousa Tavares[iii] foi ainda muito mais explícito.

Seja como for, a velha ideia de que um cidadão deve ser considerado inocente até prova em contrário, desapareceu. Agora, em certos meios de comunicação social, todos podem ser suspeitos e mesmo culpados, até prova em contrário. Ninguém acima da lei, mas abaixo da lei também não está bem.

Por tudo isso, não posso deixar de louvar a campanha do Centro de Internet Segura (CIS)[iv], que divulga dicas para distinguir notícias falsas e promover uma leitura crítica dos conteúdos online. Estratégias como estas ajudam qualquer utilizador. Esta campanha é especialmente dirigida aos jovens.

3. No meio de tudo isto, como redescobrir o valor do jornalismo? Em primeiro lugar, importa que as empresas e os jornalistas não se esqueçam da sua missão, mas os consumidores devem encontrar formas de intervir e de os chamarem à responsabilidade. Parece que as cartas ao director têm mais importância do que se julga. Obrigar os jornais a confessarem o seu erro é uma ajuda global. O Papa Francisco, na mensagem para o LII Dia Mundial das Comunicações Sociais[v], faz uma pergunta curiosa: Que há de falso nas notícias falsas?

A expressão fake news é objecto de discussão e debate. Geralmente diz respeito à desinformação transmitida online ou nos mass-media tradicionais. A referida expressão alude a informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e a manipular o destinatário.

A sua divulgação pode visar objectivos pré-fixados, influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos. A eficácia das fake news deve-se, em primeiro lugar, à sua capacidade de se apresentarem como plausíveis. São falsas, mas verosímeis. Tais notícias são capciosas, no sentido em que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários. Estão apoiadas sobre estereótipos e preconceitos generalizados, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar, como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração.

A grande dificuldade consiste em descobrir as diferentes lógicas subjacentes à sua manipulada difusão. Os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos dificilmente conseguem limitar os seus estragos. Esta lógica da desinformação tem êxito porque em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação, é sempre mais do mesmo. Não há espaço para colocar em discussão os preconceitos e abrir o diálogo. Resultado: reproduzem a deformação em que vivem.

O drama da desinformação leva a desacreditar o outro, apresentando-o como inimigo, chegando-se mesmo à sua demonização. É o caminho dos conflitos. As notícias falsas revelam a presença de atitudes intolerantes e hipersensíveis. Dilatam a arrogância e o ódio. É o resultado da falsidade.

O Papa Francisco recuou até ao Livro do Genesis[vi] para mostrar como se fabricam falsidades e também como é possível desmascará-las. Mas o que lhe interessa é a verdade, porque só ela nos tornará livres e só ela é caminho da Paz. Citou, longamente, Dostoiévski: “quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega ao ponto de já não conseguir distinguir a verdade dentro de si mesmo, nem à sua volta. Deixa de gostar de si mesmo e dos outros. Depois, sem o amor de ninguém, deixa também de amar. Na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais. Por culpa dos seus vícios torna-se uma besta. Tudo deriva de mentir continuamente a si mesmo e aos outros.”

O remédio mais radical para o vírus da falsidade é deixar-se purificar, continuamente, pela verdade.

Ninguém é dono da verdade, nem a sua única voz. A verdade é um horizonte de investigação continua e apaixonada.



[i] 1Cor 11,17-34
[ii] Público 04.02.2018
[iii] Expresso, 1º Caderno, 03.02.2018
[iv] Público 06.02.2018
[v] Voz Portucalense, 31.01.2018
[vi] Gn 2-4