quarta-feira, 23 de maio de 2018

A natural evolução da espécie real- Laureano


Os príncipes e as infantas,
Que, filhas de reis, princesas
São em terra espanhola
E eram na portuguesa,
Hoje regem-se por outros
Parâmetros de conduta,
Os seus amores reais
Nada têm de realeza,
De civis estados vários
São, e vária natureza.
E quanto a fidelidade,
Ó Garrett, é uma tristeza!

Exemplos há com fartura:
Na Espanha aqui pegada,
A mais velha das infantas
Nem na América, coitada,
Se entendeu com o marido,
E acabou divorciada.
O irmão, esse casou
Com mulher que foi casada.
O rei, não dado a disfarces,
Vê-se que não gostou nada,
Mas a rainha, discreta,
Vai sorrindo, resignada,
Pensando:”Do mal, o menos”,
Pois que já se comentava
Que o filho passava a idade
Sem arranjar namorada
Que o levasse ao altar,
À cerimónia sagrada.
Seria que propendia
Para a natureza errada?...
E consola-se, dizendo:
“Mais vale isto do que nada.”

Das princesas da Suécia
A mais nova, mais prendada
Em termos de formosura,
Do palácio disparada
Sai, para espanto de todos,
Pois não é recomendada
A permanência de alguém
Que a deixe saciada
Dos prazeres sexuais,
Enquanto não for casada.
A maninha, que não quer
Ficar-lhe atrás em nada,
Vendo que por nascimento
Ficou mais adiantada,
Apesar de na lindeza
Lhe estar bem distanciada,
Toca a seguir-lhe o exemplo,
Numa tese comprovada
De que a cara da mulher,
A parte primeiro olhada,
No conceito masculino
Não é a mais apreciada.
Vai daí, convida o homem
Por quem está apaixonada
E vão para Nova Iorque
Passar uma temporada.
De regresso, para não
Perder o fio à meada,
Cada vez que sente falta
Da comida bem provada
Mete-se no carro e ala,
Lá vai ela pela estrada,
Lá vai ela ter com ele
Para uma noite bem passada.
(Não vai o rato à montanha,
Vai esta ao rato, e mais nada!)
A vida duma princesa
É deveras agitada.
E maior agitação
Vem de tórrida paixão
Que contraria o canónico.
Ai, paixão, a quanto obrigas!,
Paixão que manda às urtigas
O chamado amor platónico.
(E à futura rainha
Não convém erva daninha!)
Por isso é que tal namoro
Muito devia ao decoro.
Sendo, então, mais tolerado
Fazer amor com o marido
Do que com o namorado
(Embora este e aquele
Sejam o mesmo Daniel),
P’ra calar o diz-que-diz
Do público sempre atento,
Engendra um final feliz
À bela real história:
Anuncia o casamento.
E todos cantam Victória!

O herdeiro da Noruega,
Em façanha pioneira
De eficiência e rapidez,
Escolheu boa maneira:
Para não ficar à espera
Duma gestação inteira
Que lhe concedesse um filho,
Foi casar com mãe solteira
E ficou logo a ser pai,
Deixando a família à beira
Dum ataque de nervoso
Miudinho. “Que doideira!”
– Hão-de ter pensado os pais.
“Está bonita a brincadeira!”

“Nada de novo no Reino
Da Dinamarca”. Fazia
Sentido e ainda faz
O adágio que corria
Mundo. Porque na verdade
Mesmo que na monarquia
Se passem coisas estranhas,
Já é normal hoje em dia.
Ninguém pense que é quimera
Ou ficção ou fantasia
A notícia de que o príncipe
(O mais novo) repartia
O coração por mulheres
Quando o casamento ia
Ainda de vento em popa
E o fim não se previa.
De um momento para o outro,
Da mulher se divorcia,
Deixando-a com três filhos,
Com um ar de nostalgia,
Dois olhos amendoados
E uma alma vazia.
Casou com outra mulher,
É assim a democracia.

No principado do Mónaco
A cena não é diferente
Quanto a amores principescos.
O príncipe ora regente,
Do qual tudo leva a crer
Não haverá descendente,
É caso paradigmático:
Dizia frequentemente
Que não tinha encontrado
A mulher que totalmente
Lhe enchesse as grandes medidas;
Referiu seguidamente,
Virando o bico ao prego,
Que não estava realmente
Preparado p’ra casar;
Depois, para variar,
Diz que vai anunciar
O noivado brevemente.
Assume a paternidade
Dum petiz que mensalmente
Tem pensão assegurada
– E retroactivamente!
E para calar as bocas
Segundo as quais claramente
Não gosta do feminino,
Reparem bem: finalmente
O artista faz o pino:
Não quer mais palavras ocas,
Diz que vai casar, e fá-lo!
Todos falam, eu não falo,
Porque, enfim, este relato
Não estuda o psicológico,
Só mencionando o contrato
Pré-nupcial, como é lógico.

Mas rainha dos escândalos,
Direi que é, seguramente,
A mais nova das princesas,
A par, evidentemente,
Da celebérrima inglesa,
De que já seguidamente
Falarei. A monegasca,
Talvez a mais dissidente
Da prática de viver
Estatutariamente,
Sempre se esteve nas tintas
Para o socialmente
Correcto. Mas ninguém sabe
Se age conscientemente
Ou p’ra chamar a atenção,
Como eterna adolescente.
Só que lhe assiste o direito
De agir livre, livremente.
Experimentou as drogas,
Casou repetidamente,
Um marido guarda-costas,
Teve, outro, também valente,
Que foi domador de feras,
Menos dela, resistente.
Até deu voz a canções,
Quis viver intensamente.

Chego agora a Inglaterra
Onde a “princesa do povo”
Trouxe dentro de um sorriso
Ao país um reino novo.
Do olhar cândido e belo
Das crianças que educava
Recolheu a inocência
Que nos olhos se estampava.
Viu-a o herdeiro do trono
Na sua simplicidade
E naquele mesmo instante
Regressou à mocidade.
Ele, p’ra quem o casamento
Parecia ser martírio,
Anunciou o noivado,
O reino entrou em delírio.
Casam. Têm dois rebentos,
A seguir espreita o perigo:
Ela diz que ele o trai
Com um amor já antigo.
Ele cai, ela reage
E cai também. Mas que queda!
Não está com meias medidas,
Paga co’a mesma moeda.
Passa a andar com uns e outros
(Cada qual por sua vez),
Desde empregados da corte
Até um paquistanês.
E com vista a que o marido
Não julgue que eram só ditos,
Ela própria afirma ao mundo
Que lhe anda a pôr os palitos.
Abomina paparazzi,
Mas alguém diz, com razão:
Haveria paparazzi
Se existisse discrição?
E é com o amante egípcio
Por quem tem paixão ardente
Que em cega noite de amor
Morre em trágico acidente.
O viúvo regressou
Aos braços do amor primeiro,
Ainda a mãe ocupa o trono,
Continua ele herdeiro.
Os rebentos estão uns homens
Iguais ao resto da malta
– Iguais é como quem diz,
Que dinheiro não lhes falta
Nem espaço no palácio
(Quartos eram às dezenas)
Para uma farras valentes
Com umas valentes pequenas.
O mais velho namorou,
Depois de um tempo, acabou
Com o namoro. Passada
Uma temporada larga,
Reencontra a namorada
Exibindo em passerelle
Um vestido transparente.
Arrepiou-se-lhe a pele,
E então voltou à carga,
Ficando ali já assente
Noivado e casamento.
Chegado o grande momento,
Todo o reino e mundo unido
Assistia comovido
Ao casório sem igual.
Depois, na vida real,
No palácio ela vivia
Em solidão, e olhava
Para o ar a ver se o via,
Enquanto ele pilotava
O helicóptero. Assim,
Rainha quando ele for rei,
Longo ano se passou,
E finalmente, feliz,
A princesa engravidou,
Antes não. Porque não quis
Ou não quis ele? Não sei.
O mais novo embriagou-se,
Encheu manchetes, drogou-se,
Fez trinta por uma linha,
Pondo os nervos da rainha
Em franja, à flor da pele,
Pobrezinha Isabel.
Não dando às miúdas negas,
Foi em pelota, em Las Vegas,
Que deu mais sentido à vida,
Exibindo o rabo ao mundo
(Vendo bem, é o que no fundo
A nobreza faz, vestida).
Mas antes fora nazi,
Vestiu-lhe, ao menos, a farda.
O que é cíclico repete-se,
Assim, qualquer dia mete-se
Noutro escândalo, não tarda.
A rainha, abelha-mestra,
A tudo assiste, impotente
Para travar a dinâmica
Moderna. Porque esta gente
Usa pente de oiro fino,
Topo de gama é o carro,
Tem sapatinhos de prata,
Contudo tem pés de barro.
Mas como os reis é que mandam,
Não se lhes nota fraqueza
– Virtude da realeza.
Ao povo, sempre mandado,
Já nada causa estranheza.

Lauro Portugal, in “Versos Inversos”, Prefácio, 2009 (adapt.)

domingo, 13 de maio de 2018

TROFA-ORDENAÇÃO DE RICARDO GOMES

Dois momentos da Ordenação no dia 12 de maio na Trofa do novo Padre Comboniano Ricardo Gomes
Em nome da Associação dos Antigos Alunos desejo ao P.e Ricardo um apostolado que o realize como homem e como padre na peugada de Daniel Comboni. Votos de muitas felicidades.

A IGREJA NÃO É DE GENTE PASMADA Frei Bento Domingues, O.P.


1. A festa litúrgica da Ascensão não é a celebração da passagem de Jesus à reforma, nem a sua fuga para o céu, seu lugar de repouso junto de Deus, onde aguardaria, no eterno descanso, os discípulos que fossem aparecendo.

A este respeito, as narrativas dos Evangelhos e dos Actos dos Apóstolos, embora não sejam contraditórias, ajustam-se com alguma dificuldade. Frutos de várias estratégias, e em contextos diferentes, tentam interpretar a significação do itinerário terrestre de Jesus para comunidades que não O conheceram. Parecem um retorno ao passado - “naquele tempo” -, mas por causa do presente. As promessas paradisíacas não são evasões deste vale de lágrimas.

São textos que procuram, por um lado, mostrar que o tempo da visibilidade da figura histórica de Jesus está encerrado; já não há ninguém para dizer eu vi! Por outro, todas as narrativas, discursos e exortações insistem na sua invisível presença. Como disse o Ressuscitado ao empirista Tomé: felizes os que crêem sem ver.

Nada disto impediu que, muito cedo, tenham surgido na Igreja duas tendências que não deveriam ser dissociadas, mas complementares: uma insiste mais na dimensão contemplativa, na comunhão mística com Cristo, e outra que não aceita a espiritualidade de gente consolada e pasmada a olhar para o céu, quando há tanto que fazer pela alegria pascal, transformante da sociedade. 

S. Lucas construiu, nos Actos, o começo da sua história da Igreja, um espantoso teatro, em três actos, para não separar o que, em tensão permanente, deve caminhar unido[1]. O primeiro mostra um Jesus ressuscitado, impotente perante a insistência dos discípulos em continuar a sonhar com poder, riqueza e glória. Não deveriam esquecer que foi o baptismo no Espirito de Deus que alterou o rumo da vida de Jesus. Foi Ele que o reorientou, guiou e animou, mesmo no meio das maiores tribulações. Um discípulo não é mais do que o Mestre: o Espírito Santo descerá sobre vós e Dele recebereis força. Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.

No segundo acto, Jesus entra na nuvem da divina invisibilidade, - a Ascensão -, mas com um aviso solene: não quero gente pasmada, a olhar para o céu, pois há muito que fazer na sociedade. Não à toa, mas de forma bem preparada nas fontes da contemplação do Mistério, para a conversão do desejo de mandar, em desejo de servir.

No terceiro acto, fica vincada a convicção de que a essencial simbólica dos Doze Apóstolos, não pode ser confundida com a Igreja. Esta é constituída por homens e mulheres que se vão convertendo, entre elas, Maria, mãe de Jesus e os seus irmãos. Toda a comunidade participou na escolha de um candidato para substituir Judas, o traidor.

É neste cenário que a alegria pascal se consuma na loucura do Pentecostes, na bebedeira do Espírito Santo. Ficamos a saber que Jesus, pela Ascensão, não foi para férias. 

2. Volta e meia manifestam-se comportamentos nas celebrações da Fé, sobretudo na Eucaristia, que revelam que ainda não saímos do culto idolátrico de certos gestos tidos como os únicos admissíveis. Pessoalmente, não me importa que as pessoas rezem de pé ou de joelhos – também se pode rezar deitado -, que comunguem pela própria mão ou pela mão do ministro da Comunhão que pode considerar os adultos como bebés ou doentes. Aconselharia, no entanto, a leitura de uma obra de José Manuel Bernal[2] para entrar na inteligência do tempo pascal constituído por cinquenta dias, entendidos como um grande Domingo, um tempo para refazer, na Alegria, a vida à luz da vitória de Cristo sobre a morte. Tertuliano, entre muitos outros autores cristãos da Antiguidade, repetem: nós consideramos que, ao Domingo não é permitido jejuar nem rezar de joelhos. Do mesmo privilégio gozamos no dia da Páscoa e no período do Pentecostes.

Seria ridículo reduzir a significação do tempo pascal ao cumprimento das prescrições de um Directório Litúrgico. Um ritual não pode ser auto referente. Uma assembleia celebrante ao fazer tudo o que nele está mandado e como está mandado pode realizar a suprema traição. Uma comunidade crente não existe para o culto, mas o culto para a transformação cristã da comunidade.

Ouço perguntar, muitas vezes, qual o papel da religião no mundo contemporâneo. Essa questão pode conduzir a becos sem saída, como se lhe competisse resolver os problemas políticos, sociais e culturais de uma determinada população e se o não fizer, é considerada inútil.

Do ponto de vista cristão, haverá sempre quem se pergunte porque é que Jesus, que teve uma intervenção profética tão exigente no campo económico, político e religioso-cultual, não nos tenha deixado um manual pronto a servir para todos os tempos e lugares acerca do que os cristãos devem pensar, fazer e rezar? Era prático e não devia ser difícil à sua sabedoria divina.

Se o caminho cristão fosse apenas a adesão mística à transcendência absoluta de Deus, bastava deixá-lO em paz e que Ele nos deixasse também em paz e ponto final. Mas o Verbo fez-se fragilidade humana e todo o seu percurso foi para que a vossa alegria seja completa[3].

3. A degradação da religião é feita pelas idolatrias criadas pelos nossos desejos de poder de dominação: pelo dinheiro, pela política, pela própria religião ou por tudo isso junto. Adoramos o que nos destrói e destrói o nosso mundo.

Desde o profeta Moisés, a religião autêntica brota da revelação de um Deus irrepresentável, mas que não tolera idolatrias que nos degradem. Jesus teve de vencer, desde o começo, as chamadas tentações messiânicas: servir-se, em nome de Deus, do poder económico, político e religioso para a realização da sua missão. Ao recusar esse caminho, tornou-se um homem livre, capaz de denunciar tudo o que escravizava a vida dos seus contemporâneos.

Como diz S. Tomás de Aquino, não se recolheu num mosteiro para ter uma vida de iluminada contemplação. Não Lhe bastou ser luz. Viveu no meio do povo para que todos vissem o que liberta e o que escraviza o ser humano. O testamento que nos entrega nesta festa da Ascensão continua a ser o mesmo: não é de uma Igreja de gente pasmada a olhar para o Céu que se podem descobrir e manifestar as idolatrias que nos escravizam. Como diz o Papa Francisco o que importa é uma Igreja de saída para todas as periferias.



13.05.2018 





[1] Act 1, 6-11
[2] Para Viver o Ano Litúrgico, Gráfica de Coimbra, 2001.
[3] Jo 15, 11; 16, 24; 1Jo 1, 1-4; Cf Jo 10,10

sexta-feira, 11 de maio de 2018

5 DE MAIO - TURMA DE 1968

No nosso Encontro Anual realizado no passado dia 5 de maio em VISEU celebramos os 50 anos da turma de 1968. Aqui estão 12 antigos alunos dessa turma, adolescentes carregados de sonhos e de vida, que nos princípios de outubro de 1968 entraram para o seminário da missões de Viseu. 50 anos passados, reviveram com emoção esses tempos sentando-se nos mesmos bancos da capela que os acolheu : um dos dois locais sagrados do seminário no dizer poético do Laureano. O outro é o refeitório. No próximo ano, certamente, outros se lhes juntarão para se reencontrarem e reviverem.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

ENCONTRO DE 5 DE MAIO DE 2018

E assim se realizou mais um ECONTRO ANUAL no dia 5 de maio de 2018. Cumpriu-se o programa, houve festa e muita emoção num encontro que reuniu mais de cem antigos alunos.
Em nome da Associação manifesto a nossa alegria pela adesão havida. É nosso propósito continuar a  promover estes encontros em que a colaboração de vários colegas tem sido fundamental. As " sobras" do almoço foram utilizadas para pagar as refeições dos Combonianos presentes e reforçar a bolsa de estudo instituída no ano passado. Os nossos agradecimentos ao Superior da Casa, Pe. Francisco Medeiros, ao Provincial, Pe. José Vieira, e aos testemunhos  do Pe.António Carlos, do Pe. Gregório e do Pe.Manuel dos Anjos.
No próximo ano...voltaremos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O ESPÍRITO SANTO É UM ATREVIDO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Entramos em Maio e no VI Domingo da Páscoa. O Espírito Santo resolveu não esperar pela festa do Pentecostes e meteu S. Pedro em sarilhos teológicos e pastorais[1]. Contam os Actos dos Apóstolos (Actos) que estava ele para começar a rezar, mas com muita fome. Veio do Céu uma toalha cheia de manjares, mas todos proibidos a um bom judeu. Foi o próprio Espírito Santo quem lhe disse para não ligar a essas proibições e comer à vontade. Insistiu ainda que entrasse na casa de um gentio, um centurião romano, que o recebeu desvanecido. Pedro anunciou aí um princípio teológico de alcance universal: reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, pois qualquer uma, de qualquer nação que O tema e pratique a justiça, Lhe é agradável. Não estava a criar um novo privilégio, pois Jesus Cristo, que é o Senhor de todos, até começou pelos filhos de Israel o anúncio da boa nova da paz.

O Espírito Santo mostrou que não estava para conversas nem muitas cerimónias. Desceu sobre todos. Os companheiros de Pedro ficaram maravilhados ao verem que os gentios tinham a mesma sorte que eles. Pedro rendeu-se à evidência: como negar o baptismo aos que já receberam o Espírito Santo? Nasceu ali uma nova comunidade.

Esta impertinência não agradou aos circuncisos mais fanáticos. Ao subir a Jerusalém acusaram Pedro: o que foste fazer?! Entraste em casa de incircuncisos e comeste com eles?

Pedro teve de contar tudo, de fio a pavio. Tinha alterado a distinção entre sagrado e profano: ao que Deus purificou não chames profano. Acrescentou: eu não tive culpa nenhuma. Estava a falar e o Espírito Santo caiu sobre eles como sobre nós ao princípio. Foi, então, que me lembrei das palavras de João: sereis baptizados no Espírito Santo. Quem sou eu para me opor a Deus?

 A mudança de mentalidade não se resolve com uma explicação. Os que foram dispersos por causa do atentado contra Estêvão não ficaram parados. Anunciavam Jesus Cristo, mas dirigindo-se, apenas, aos judeus da diáspora. Alguns cipriotas e cirineus chegaram a Antioquia, abandonaram essas esquisitices e dirigiram-se a todos. Barnabé, constituído espião pela igreja de Jerusalém, virou-se para essa nova realidade. Partiu para Tarso à procura de Paulo e levou-o para Antioquia. Passaram um ano inteiro nesta nova igreja que cresceu como leite ao lume. O autor dos Actos nota deliciado: foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos.

A Bíblia de Jerusalém comenta: ao criarem a alcunha de cristãos, os pagãos de Antioquia fizeram do título “Cristo” (ungido) um nome próprio. E assim ficou até hoje.

2. Os discípulos de Cristo continuavam com profundas divergências: uns sustentavam que a abertura aos gentios era respeitável, mas se adoptassem os costumes judaicos; outros diziam que o Espírito Santo não ligava a essas distinções. Apesar das divergências, os cristãos de Antioquia, quando souberam da fome que se passava na Judeia, decidiram reunir auxílios, cada um segundo as suas posses, e mandaram Barnabé e Paulo entregar o fruto recolhido aos anciãos. A comunhão real é sempre mais importante do que as divergências teológicas.

Dizem os Actos que Herodes começou a maltratar alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isto agradava aos judeus, meteu Pedro na cadeia bem policiada para fazer, depois da Páscoa, um brilharete com este prisioneiro. Na noite em que Herodes se preparava para essa operação de propaganda, um Anjo dirige as operações da fuga. Venceram todos os obstáculos e até o portão de ferro que dava para a cidade se abriu. Quando Pedro se dá conta que não esteve a sonhar, dirigiu-se para a casa de Maria, mãe de João, onde estavam muitos a rezar. Bateu à porta, a criada foi escutar e correu para dentro a anunciar que Pedro estava em frente do portal. Disseram-lhe: estás maluca. Ela, porém, sustentava que era ele mesmo. Os outros diziam: talvez um Anjo. Herodes não era para brincadeiras. Não encontrando Pedro que fugira para Cesareia, mandou matar os soldados.

3. O Espírito Santo é muito atrevido, mas não é louco, não se substitui a ninguém, não tem uma varinha de condão para eliminar conflitos, não quer fazer nada sozinho, mas também não se acomoda ao que sempre assim foi. Era viável que a memória de Jesus tivesse suscitado mais uma variante do judaísmo – era uma religião com muitas tendências – e ficasse por ali, em Jerusalém, tranquila, sem criar problemas nem rupturas.

O autor dos chamados Actos dos Apóstolos já tinha escrito uma obra sobre Jesus, que rompera com o seu austero mestre João Baptista por causa das convicções que o incontrolável Espírito Santo lhe tinha metido na cabeça e no coração[2].

É esse mesmo Espírito que provoca uma Igreja de saída em todas as direcções. Começada com Pedro, acelerou-se com Paulo e Barnabé. É, de novo, o Espírito Santo que não se contenta com a bem evangelizada e organizada Igreja de Antioquia que tinha profetas e doutores em abundância: «separai-me Bernabé e Saulo para a obra que os destinei. Então, depois de terem jejuado e orado, impuseram-lhes as mãos e despediram-nos[3]».

E lá foram eles, por todo o lado, a abrir o caminho do Evangelho tanto a judeus como a gentios – tendo mais sorte com estes do que com os primeiros – e organizando as comunidades para que a missão continuasse, ainda que no meio de muitas contrariedades.

Regressados a Antioquia, narraram o que tinha acontecido sublinhando como se havia aberto a porta da Fé aos gentios. Ficaram lá bastante tempo, mas não muito descansados.

Vieram alguns da Judeia com a velha história: «se não vos circuncidardes, segundo a norma de Moisés, não vos podereis salvar».

O texto acentua que isto provocou uma grande agitação. Paulo e Barnabé não se deram por vencidos. Entraram no debate. Sem solução à vista, resolveram subir a Jerusalém para tratar deste litígio com os apóstolos e os anciãos. No caminho continuaram a falar da conversão dos gentios e a dar alegria aos cristãos da Fenícia e Samaria. Ao serem acolhidos em Jerusalém pelos apóstolos e anciãos, os fariseus que abraçaram a fé cristã, não desarmaram: os gentios têm de adoptar os costumes judaicos e a lei de Moisés. Reuniram-se em concílio, a discussão não abrandou e foi Pedro que inclinou a balança para o lado de Barnabé e Paulo, a ponto de Tiago, chefe da Igreja local, também apoiar a ideia de que não deviam molestar os gentios que se convertessem a Deus. Foi redigido um documento que dava livre-trânsito à contestada missão de Paulo e Bernabé.

Lendo a história agitada dos capítulos 10-15 dos Actos, que temos seguido, somos levados a pensar que o Papa Francisco se deixou manipular pelo Espírito Santo. Esse atrevimento de recusar a consagrada receita do sempre assim foi libertou-o para procurar inserir, nas mudanças do mundo, a inquietante novidade do Evangelho.



06. 05. 2018





[1] Act. 10 – 15.
[2] Lc 3 - 4
[3] Act. 13, 1-3

domingo, 29 de abril de 2018

A IMPERTINÊNCIA DA EVANGELIZAÇÃO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Encontrei, em várias intervenções de Thierry-Dominique Humbrecht[1] e no título de um dos seus livros, A evangelização impertinente, a sugestão para esta crónica, ainda que com desvios.

O autor referido pretende escrever um guia do cristão nos países pós-modernos. Teve bom acolhimento. Não se conforma com a moleza das expressões da presença cristã em algumas sociedades ocidentais. Não é preciso estar inteiramente de acordo com o seu diagnóstico nem com as suas propostas. É mais importante suscitar um debate do que apresentar soluções para cristãos apressados e preguiçosos.

Th-D. Humbrecht é um investigador da filosofia medieval e já deu provas da sua acutilância analítica. Não se resigna, porém, a viver na sua torre de marfim do passado, nem se conforma com o silêncio dos católicos nos actuais debates que percorrem a sociedade. O cristão parece intimidado, excluído da cultura, dando a impressão de que não se deixa interrogar pela gravidade do que está acontecer. Ao julgar irremediável que o país deixe de ser cristão, não se apercebe que existe uma estratégia, dita pós-moderna, interessada em libertar-se dessa herança. O niilismo exibido esconde, no entanto, um projecto de poder, por vezes, também, uma nostalgia.

Tendo em conta esse ambiente, que abrange uma grande complexidade, como é que um cristão se pode situar entre a compaixão, a cumplicidade e a contracultura? Perante os cortes na transmissão do que há de vivo no passado, o abandono de muitas heranças, a ditadura do relativismo e certo ateísmo católico, muitos cristãos têm a impressão de que o grande navio se tornou uma simples barcarola.

De facto, o próprio cristão cede muitas vezes a essa lógica: escolho o que me apetece e deixo de lado o que não me interessa. Nestas condições, como fazer ouvir o Evangelho? Pela palavra ou pelo exemplo? E onde: na família, na educação, na política, na cultura?

Entre a laicidade mal compreendida e os vãos apelos ao milagre, o caminho da providência é o que se baseia na nossa coragem pública. O cristão tem algo de insubstituível a dizer aos seus contemporâneos. Não há Igreja sem evangelizadores impertinentes, que ofereçam uma mensagem de esperança para tempos de relativismo.

Para o conseguir, é preciso desembaraçar-se de um paradoxal anti-intelectualismo. O cristão deve, pelo contrário, cuidar a sua formação e tornar-se competente sob o ponto de vista intelectual. Por isso, os jovens cristãos devem preferir profissões criativas, em todas as suas expressões, àquelas que acenam apenas com sucesso pessoal no campo financeiro.

 O filósofo dominicano Th. D. Humbrech, professor em várias universidades, inconformado com a incultura do vale tudo e o seu contrário, luta por uma viragem cultural, por um catolicismo competente no campo literário, artístico, filosófico, teológico, espiritual, ético e político.

2. Agrada-me esta vontade de acabar com um catolicismo culturalmente envergonhado e complexado. Detesto, porém, todas as derivas de compensação que vão desaguar no catolicismo fundamentalista, em nome da verdadeira doutrina da Igreja e se esgota na falsa tranquilidade dos catecismos e do Direito Canónico. A fé cristã não se fixa nas formulações dos credos. É uma entrega ao infinito amor de Deus que nenhuma expressão O pode limitar. O místico é aquele que não pode parar. É uma viagem permanente, sem apeadeiros, sem estações definitivas, até chegar à plenitude da alegria de Deus.

A fé é um activador da criatividade, não um extintor. Tomás de Aquino insistiu sempre em que uma coisa é recitar os credos da ortodoxia, outra é procurar entender Aquele a quem nos confiamos. Recitar o Credo sem procurar responder à questão: como é que é verdade aquilo que confesso ser verdade?, posso ser muito ortodoxo, mas sou uma cabeça vazia.

Também não basta ler os textos e as narrativas do Novo Testamento (NT). A letra mata, só o espírito do texto vivifica. Quando um padre ou um bispo faz uma homilia a repetir a leitura que já escutámos, bem podia ficar calado. É fundamental entrosar as narrativas bíblicas com as experiências actuais da fé, na encruzilhada dos problemas vividos na sociedade.

O Concílio Vaticano II, tão esquecido, lembrou que «é dever da Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos seres humanos acerca do sentido da vida presente e futura e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, o seu carácter tantas vezes dramático[2]».

A criatividade da fé cristã não se pode manifestar, apenas, nas expressões teológicas e na poesia mística. Pertence-lhe activar e exprimir-se em todas as grandes formas de criatividade humana: literatura, artes plásticas, encenações teatrais, cinema, bailado, humor e, sobretudo, música. Dentro e fora da liturgia.

Não é preciso nenhum mandamento divino para justificar esta atitude. Como dizia Tomás de Aquino, o bem deve ser praticado porque é bem e o mal devia ser evitado porque é mal.

3. Não podemos esquecer a impertinência do Evangelho de Jesus Cristo. Se tivesse sido mais acomodado podia ter tido uma carreira brilhante. O diabo do poder de dominação económica, política e religiosa bem o tentou e o Nazareno não tinha o fascínio de João Baptista pela austeridade. Ele gostava da vida. Tinha o defeito de não suportar ver uns à mesa e outros à porta; uns como povo de Deus e outros não se sabe de quem; uns classificados, à partida, como santos e outros como pecadores; uns privilegiados porque eram homens e outras marginalizadas porque eram mulheres.

Tinha a impertinência de gostar da vida para todos, desenvolvendo as potencialidades humanas e os talentos, sem discutir se estavam bem ou mal distribuídos. Tinha ainda um outro defeito: detestava a ganância e o carreirismo. Os discípulos que escolheu andavam sempre a perguntar-lhe o que ganhavam na sua companhia e o lugar que lhes estava destinado. Um dia teve de pôr tudo em pratos limpos, mas sem grande sucesso.

O Evangelho de S. Mateus[3], fruto de muita reflexão e de muita experiência pós-pascal, quis deixar, em três parábolas, algo de extraordinário: a importância da lucidez contra o deixar correr, a importância de ninguém se desculpar por não ser um génio, mas não há nenhuma ciência nem nenhuma capacidade de fazer fortuna que não tenha de olhar para o lado e ver os que ninguém cuida.  

29.04.2018





[1] Thierry-Dominique Humbrecht, O.P., L'évangélisation impertinente. Guide du chrétien au pays des postmodernes, Paris, Parole et Silence, 2012 (3e édition).  
[2] Gaudium et Spes, 4
[3] Mt 25