segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

QUEM DESAFIA QUEM? Frei Bento Domingues, O.P.


1. A guerra de insultos entre ciência e religião só pode ser alimentada e divulgada pelo persistente desconhecimento da natureza destas duas atitudes e práticas, igualmente humanas e diversas. Não são concorrentes, pois não brotam das mesmas perguntas, nem seguem os mesmos caminhos. Uns são os métodos da investigação científica, outros os percursos da experiência religiosa.

Certas formas de ateísmo contemporâneo, com ou sem invocações científicas, pretendem mostrar que a religião é um veneno. Para os adversários deste neoateísmo trata-se, apenas, “da última superstição”. São, de facto, duas apologéticas ideológicas. Deliciam-se a encontrar as formas mais sofisticadas ou mais grosseiras de se desqualificarem mutuamente. Distorcem um debate necessário, que não pode ser feito nesses termos, nem nesse clima crispado e de propaganda[1].

Muito diferente é o estilo de Francisco J. Ayala, um biólogo, membro da Academia Nacional das Ciências dos USA, que também teve uma exímia preparação teológica. Ao terminar a sua obra sobre a evolução e a fé religiosa mostra que elas não são incompatíveis. Os crentes podem ver a presença de Deus no poder criativo do processo de selecção natural, descoberto por Darwin. Como este escreve no final da Origem das Espécies, “existe grandeza nesta concepção de que a vida, com as suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador … e que, a partir de um princípio simples se desenvolveram uma infinidade de formas, as mais belas e poderosas”[2].

Hoje, existem bastantes pessoas com preparação científica e teológica para não se fazer de uma teoria científica e de uma convicção de fé religiosa um campo de batalha. Na religião não vale tudo. Jesus Cristo passou o tempo a denunciar a religião em que foi criado quando ela não servia a vida e alegria dos seres humanos.

2. O Papa Francisco[3], no passado dia 18 de Novembro, ao receber os Membros, Consultores e Colaboradores do Pontifício Conselho para a Cultura, assumiu, no seu discurso, uma posição descontraída, como se fosse absolutamente normal a Igreja ser desafiada e desafiar a questão das questões, a questão antropológica, e encontrar as linhas futuras de desenvolvimento da ciência e da técnica.

Bergoglio realçou que este Conselho para a Cultura tinha concentrado a sua atenção, de modo particular, em três tópicos.

O primeiro é sobre a medicina e a genética, que nos permitem olhar para dentro da estrutura mais íntima do ser humano e até intervir nela para a modificar. Tornam-nos capazes de debelar doenças que até há pouco tempo eram consideradas incuráveis; mas abrem, também, a possibilidade de determinar os seres humanos, “programando”, por assim dizer, algumas das suas qualidades.

Em segundo lugar, as neurociências que oferecem cada vez mais informações sobre o funcionamento do cérebro humano. Através delas, realidades fundamentais da antropologia cristã como a alma, a consciência de si e a liberdade aparecem, agora, sob uma luz inédita e até podem ser postas seriamente em discussão por parte de alguns.

Finalmente, os incríveis progressos das máquinas autónomas e pensantes, que em parte já se tornaram componentes da nossa vida quotidiana, que nos levam a meditar sobre aquilo que é especificamente humano e nos torna diferentes das máquinas.

Todos estes desenvolvimentos científicos e técnicos induzem algumas pessoas a pensar que nos encontramos num momento singular da história da humanidade, quase na alvorada de uma nova era e no surgimento de um novo ser humano, superior àquele que conhecemos até agora.

As interrogações e as questões que devemos enfrentar são graves. Por isso a Igreja, que acompanha, com atenção, as alegrias e as esperanças, as angústias e os medos do nosso tempo, deseja colocar a pessoa humana e as questões que lhe dizem respeito, no centro das suas próprias reflexões.

A antropologia é o horizonte de auto compreensão no qual todos nos movemos, diz o Papa, e determina a nossa noção do mundo e as escolhas existenciais e éticas. Hoje, apercebemo-nos de que os grandes princípios e os conceitos essenciais são constantemente postos em questão, inclusive com base num maior conhecimento da complexidade da condição humana. Exigem novos aprofundamentos. Por outro lado, as mudanças socioeconómicas, os deslocamentos de populações, os confrontos interculturais, a propagação de uma cultura global e, sobretudo, das incríveis descobertas da ciência e da técnica inscrevem-se num contexto mais fluido e mutável.

3. Bergoglio pergunta: Como reagir a estes desafios?

Antes de tudo, diz, devemos expressar a nossa gratidão aos homens e às mulheres de ciência pelos seus esforços e pelo seu compromisso a favor da humanidade.

Este apreço pelas ciências, que nem sempre soubemos manifestar, continua o Papa, encontra o seu fundamento último no desígnio de Deus, que nos escolheu antes da criação do mundo como seus filhos adoptivos[4], confiando-nos o cuidado da criação: cultivar e salvaguardar a terra[5].

Precisamente porque o ser humano é imagem e semelhança de um Deus que criou o mundo por amor, o cuidado de toda a criação deve seguir a lógica da gratuidade e do amor, do serviço e não do domínio nem da prepotência.

A ciência e a tecnologia ajudaram-nos a aprofundar os confins do conhecimento da natureza e, em particular, do ser humano. Elas sozinhas não são suficientes para todas as respostas. O ser humano tem outras dimensões. É necessário recorrer aos tesouros da sabedoria conservados nas tradições religiosas do saber popular, à literatura, às artes e a tudo o que toca o mistério da existência humana, sem esquecer a filosofia e a teologia.

Não estamos no pior nem no melhor dos mundos. Os progressos científicos e tecnológicos são incontestáveis, mas a quem aproveitam? Quem são os seus beneficiários? Servem para o bem da humanidade inteira ou criam novas desigualdades? As grandes decisões sobre a orientação da pesquisa científica e sobre os investimentos que exigem devem ser tomadas pelo conjunto da sociedade ou ditadas apenas pelas regras do mercado ou pelo interesse de poucos?

Com o Papa Francisco entramos numa Igreja que aceita ser desafiada, mas que desafia, não como quem manda, mas como quem serve a casa comum

10 Dezembro 2017



[1] Edward Feser, A última superstição. Uma refutação do neoateísmo, Ed. Cristo Rei, Belo Horizonte, 2017
[2] Cf. Darwin y el Diseño Intekigente. Creacionismo, Cristianismo Y Evolución, Alianza Editorial, Madrid, 2008, pp 206-207
[3] Discurso do Papa Francisco ao Pontifício Conselho para a Cultura
[4] Ef 1, 3-5
[5] Cf. Gn 2, 15

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Assembleia eleitoral do Outono – A celebrar o 6º Aniversário…

(...) A UASP, no decurso dos vários ciclos de crescimento, tem sido fiel à sua “Identidade e Missão”. Não só tem cumprido a “vontade de fazer memória das origens, mas tem, sobretudo, procurado “reflectir sobre o momento que nos é dado viver”… Assim, logo em 2010, realizou uma jornada de reflexão sobre “Ética e Responsabilidade na Gestão do Bem Comum”. Depois, seguiram-se os retiros e as jornadas culturais. Consolidava-se, deste modo, a oração e a acção, a contemplação interior e exterior. Um dos momentos altos da vida da UASP foi a realização dos Fóruns. Em Lamego, Setembro de 2012, sobre a “Identidade e Missão”; em Braga, 2014 e 2015, “Olhares sobre o II Concílio do Vaticano” e “ A arte, instrumento estruturante ao serviço da nova Evangelização”; em Fátima, 2016, “A Misericórdia nas tradições abraâmicas”; ainda em Fátima, 2017, “Do Jubileu ao quotidiano, a Misericórdia como paradigma”. (Continua)


www.uasp.pt | Faceboock.com/uasp


Natal jubano: Juba celebra um Natal vibrante e colorido 07 de Dezembro de 2017

Passei o meu primeiro Natal em Juba, no Sul do Sudão, em 2006. Os dias que o antecederam foram de grande azáfama e preocupação: queríamos ter tudo a postos para que a primeira emissão experimental da Rádio Bakhita acontecesse na noite de Natal...
Jovens, mulheres e homens, tudo vestido a preceito, corriam pelas ruas sem iluminação pública numa alegria efusiva. Rapazes queriam impressionar a fazer habilidades com as suas motas. Automóveis manifestaram-se com uma explosão de sons numa coreografia desordenada e imparável. As ruas junto às igrejas fervilhavam de gente e de actividade....
Não sei se este ano os cristãos voltam a trazer a alegria do Natal para as ruas de Juba e para os caminhos do país. Mas Jesus, o Deus-connosco, continua a oferecer a sua paz a todos os que queiram fazer o caminho da reconciliação e da conversão.

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra, sobretudo no Sudão do Sul martirizado!» – vão cantar os anjos na noite santa.

José da Silva Vieira (MCCJ) – Revista Além-Mar, Dezembro de 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

ENTRE O FIM E O COMEÇO Frei Bento Domingues, O.P.


1. Foi há 60 anos que li, pela primeira vez, na Summa Theologiae, de S. Tomás de Aquino, uma advertência que não se destinava apenas a principiantes: em teologia, é preciso evitar argumentações pretensiosas, sem fundamento rigoroso. Quem as usa oferece aos infiéis matéria para se rirem da fé, pois ficarão com a ideia de que as afirmações dos crentes são
todas igualmente estúpidas[1].


Existem instituições eclesiásticas que se tornaram um obstáculo evidente ao desenvolvimento da vida cristã da Igreja e à realização da sua missão essencial na sociedade. Seria normal que fossem submetidas a uma avaliação rigorosa e se procedesse à sua reorientação e reconfiguração. Não é assim que acontece. Não é pelos frutos que se conhece a árvore? Insiste-se, pelo contrário, na sua sacralização para não se poder mexer nelas e arranjam-se razões que servem apenas para afastar os crentes e fazer rir os agnósticos e ateus.

      O regime actual dos ministérios ordenados está a secar as comunidades católicas e a privá-las da Eucaristia a que todos os baptizados têm direito. E. Schillebeeckx mostrou que era possível encontrar respostas criativas que não precisavam de passar pelos seminários. O Cardeal Ratzinger bem se esforçou, mas não encontrou razões para invalidar as propostas finais do teólogo dominicano. Yves Congar, a figura maior da eclesiologia católica no séc. XX, declarou que as assinava, sem reticências. Nada feito. A situação continua a agravar-se. O caso tão badalado do “padre da Madeira” encontrou na hierarquia declarações que não deixam ninguém indiferente: uns sofrem com elas e outros riem-se. A retórica eclesiástica, mal argumentada, acaba por deixar mal as crianças, a família, os padres e o celibato. S. Tomás de Aquino tinha razão[2].  

     2. O Papa, neste caso e semelhantes, não pode fazer nada?

Não se esqueça que o Papa é bispo de Roma, não é bispo da Madeira ou de Lisboa. Terá um dia de alterar o modelo de escolha e nomeação dos bispos. Mas a nível central, não lhe tem faltado trabalho com a reforma da Cúria. Foi João XXIII, nos tempos modernos, o primeiro a defender que seria um bem geral “sacudir a poeira imperial, que foi caindo, desde Constantino, sobre o trono de Pedro”. O Papa Francisco continua às voltas com essa herança pesada e paralisante[3].

      Bergoglio tem um programa envolvente de que não abdica, apesar de todas as resistências. Propõe: “ Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem a não frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas podem levar a um regresso. Mas é necessário, audácia, coragem”[4].

As dificuldades de Jesus Cristo, ao propor uma mudança de mentalidade aos seus contemporâneos e aos membros do povo a que pertencia, encontrou uma grande adesão no mundo dos excluídos, mulheres e homens, e uma resistência implacável entre os privilegiados e, sobretudo, entre os fariseus, os que não entravam no novo projecto de vida nem deixavam entrar. O Papa Francisco não hesita em lembrar estas passagens dos Evangelhos para comparar com o que está a acontecer com as reformas que propõe. Certos cardeais, bispos, padres, seminaristas - e outros grupos organizados - são os que mais resistem às reformas que ele propôs e que são inadiáveis. As resistências, activas e passivas, são cada vez mais declaradas e ridículas. Assim como aconteceu com Cristo, nenhuma ameaça o tem paralisado.

3. Muito se discutiu se a História tem ou não sentido. Não vou reabrir esse dossier[5], mas fiquei, mais uma vez, fascinado com o desenlace do Capítulo 25 do Evangelho de S. Mateus. É uma parábola. É a coroa de duas anteriores. Parece ser o julgamento final.

 Como parábola está sujeita a várias interpretações. É muito estranha. A divindade não está separada do devir do mundo. Mais ainda, está identificada com todas as pessoas, que não têm todas o mesmo comportamento. O que as divide? O modo como olham para o vizinho, para o socorrer ou para o ignorar. É um golpe fatal na religião que está apenas preocupada com Deus. Quem se preocupa só com Deus, nem com Deus se preocupa.

Cristo não surgiu com uma nova organização religiosa concorrente no mundo das religiões. O seu embate constante foi com as instituições do Povo de Deus, que esqueciam e maltratavam quem mais precisava de acolhimento e ajuda. O culto religioso tornara-se o adversário da alegria humana. Isto era absolutamente inaceitável para Jesus. O aforismo, o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado, é o símbolo da alteração mais radical no campo religioso, seja qual for a época.

O que, de facto, festejámos no Domingo passado foi, por um lado, a vitória contra a indiferença. Não podemos andar no mundo e dizer não vi, não sei, não é comigo. Por outro, o que faz a diferença e julga a vida de cada um é o estilo da sua própria vida. Quando o Senhor da história se identifica com os socorridos ou abandonados, não deixa nada para o fim. É hoje que cada um diz a última palavra.

Celebramos, neste Domingo, o começo do Advento. Que não estamos no melhor dos mundos possíveis, é evidente. Se julgamos que é impossível alterá-lo, somos suicidas, niilistas. Não seríamos verdadeiramente humanos e muito menos cristãos.

Que fazer?

03.12.2017



[1] I q.46.a.2.
[2] Cf. Ricardo Araújo Pereira, Discriminar como Jesus discriminou, Visão, 23.011.2017; Teresa Martinho Toldy, A Igreja fechada no seu Olimpo, Público, 25.11.2017
[3] Yves Congar, Igreja serva e pobre, Ed. Logos, Lisboa 1964, p152
[4] Entrevista do Papa Francisco, Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora, Paulus, 2013, pp 36-37
[5] Francisco J. Ayala, Darwin Y el Diseño Inteligente. Creacionismo, Cristianismo Y Evolución, Aliança Editorial, Madrid, 2008

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Jesús Ruiz Molina foi ordenado bispo auxiliar de Bangassou 17 de Novembro de 2017

O missionário comboniano de Burgos, Jesús Ruiz Molina, foi ordenado bispo auxiliar de Bangassou, no passado dia 12 de novembro, na República Centro-Africana. A celebração ocorreu em Bangui, porque à sua nova cidade só se pode chegar de helicóptero...
Depois de ter passado pelo Chade e pela cidade centro-africana de Mongoumba, Jesús Molina aceitou ser destinado a um lugar marcado seriamente pela violência de uma guerrilha sem fim para colaborar com o bispo titular D. Juan José Aguirre Muñoz, outro comboniano espanhol, a encontrar caminhos para a paz, a reconciliação e a servir os mais pobres.

domingo, 19 de novembro de 2017

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO OU LIBERTAÇÃO DA TEOLOGIA? (2) Frei Bento Domingues, O.P.


1. Recebi, recentemente, três obras de três consagrados autores portugueses. Uma é de António Lobo Antunes, outra de Frederico Lourenço e a terceira de António Damásio. Uma pertence à criação literária, outra ao alargamento do nosso mundo bíblico e a terceira à investigação científica. Ninguém escreve como Lobo Antunes, ninguém pode ousar o que Frederico Lourenço consegue, a antropologia científica, filosófica e sapiencial de António Damásio é o guião e o mapa que nos faltavam para a fascinante viagem às raízes da vida, dos sentimentos e das culturas humanas. Mostra-nos como e porquê “os seres humanos acabam sempre por depender da maquinaria dos afectos e das suas ligações com a razão. Não há maneira de fugir a tal condição”.

     Conhecer essa maquinaria ajuda a não sermos cegos a conduzir outros cegos para o desastre pessoal e colectivo. As investigações destinadas a saber quem somos, como somos, quem podemos e devemos ser, requerem a cooperação de todas as ciências e sabedorias. A cultura da cooperação é um caminho luminoso para nos irmos libertando do egoísmo, o inimigo público e privado do presente e do futuro da humanidade.

 Repete-se que a ciência e a tecnologia podem ser usadas para melhorar o nosso futuro – o seu potencial continua a ser extraordinário – ou podem representar a nossa perdição. Pode-se continuar, por outro lado, a desenvolver a ideia de que o ser humano é uma paixão inútil que importa substituir por outra coisa mais limpa, mais inteligente e mais rentável. Essa coisa pós-humana já está configurada, mas continuo a não saber para quem.  

Destaquei o novo livro deste investigador português, radicado nos EUA, porque, em primeiro lugar, preciso dele – talvez não seja o único – para perceber “a estranha ordem das coisas” na evidente desordem do mundo. Ao chegar ao fim, exprime uma atitude que é essencial à libertação da teologia. Permito-me transcrever: “Em primeiro lugar, e tendo em conta as imensas novas e poderosas descobertas científicas, é fácil ceder à tentação de acreditar em certezas e interpretações prematuras que o tempo se encarregará de rejeitar impiedosamente. Estou preparado para defender a minha actual visão sobre a biologia dos sentimentos, da consciência e das raízes da mente cultural, mas não tenho ilusões sobre a durabilidade dessa visão. Em segundo lugar, embora seja possível falar com alguma confiança das características e das operações dos organismos vivos e da sua evolução, e embora seja possível situar o início do respectivo universo há cerca de 13 mil milhões de anos, não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem e ao significado do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para recordar que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar a abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido”[i].

2. Se as lideranças da Igreja, os teólogos, os padres e os catequistas tivessem estes cuidados de puro bom senso teriam evitado, às comunidades cristãs, muitos falsos problemas no campo da criação cultural, das ciências, da acção pastoral e da ética. Não tomariam atitudes e decisões que pudessem impedir uma virtuosa abertura ao futuro, ao imprevisto e imprevisível.

Nota-se isto em muitos âmbitos, mas tornou-se uma tragédia que se aprofunda e alarga, dia a dia, em relação aos “ministérios ordenados” de solteiros e casados, sobretudo à declaração de que as mulheres nunca poderão receber o sacramento da Ordem. Poder-se-ia perguntar como é que se sabe tanto acerca do futuro e tão pouco acerca do presente?

Configuraram-se as instituições funcionais da Igreja para determinados contextos sociais e culturais que não podem ter garantias de eternidade. Não tendo isso em conta, acabam por deixar a vida pastoral em becos sem saída, paralisada. Abandonaram-se os avisos de Cristo: “para vinho novo, odres novos”; “o sábado é para o ser humano e não o ser humano para o sábado”. S. Paulo não se esqueceu: foi para a liberdade que Cristo vos libertou.

É muito importante a questão e a história da teologia da libertação, mas volto a dizer que é ainda mais decisivo libertar a teologia da ideologia, da visão distorcida da fidelidade confundida com a repetição do pré-definido, do pré-sabido e do sempre rezado, assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos[ii].

Um dos modelos medievais da prática teológica, que sempre me deliciaram, estava ligado à interrogação sistemática, isto é, às questões disputadas (quaestiones disputatae). Tomás de Aquino, além disso, estava profundamente marcado pela teologia negativa, que nada tinha de niilista. Qualquer afirmação tinha de ser acompanhada de negação. Depois de descrever a sua teoria do conhecimento teológico e de mostrar a razoabilidade da afirmação da existência de Deus, diz que seria normal que se procurasse saber como é Deus, mas não podia ir por aí, pois só podemos saber como Ele não é. Esta é uma teologia da libertação da idolatria dos nossos conceitos da divindade[iii].

Era o tempo da combinação do atrevimento, na teologia, com a virtude da modéstia na sua prática. Tomás de Aquino sabia unir o que outros separavam: procurar entender para crer e crer para entender.

3. Quando me perguntam qual foi o papel da teologia da libertação em Portugal, tenho de ter em conta vários aspectos para poder responder. A teologia académica, entre 1911 e 1968, esteve em perfeito jejum, como já referi. Não é uma interpretação. É um facto. Na maioria dos casos, a teologia dos seminários era de importação, de justificação do que estava mandado crer e pensar, preparava párocos. O padre Joaquim Alves Correia era um teólogo por conta própria. Testemunhava a Largueza do Reino de Deus, que lhe saiu caro, dada a estreiteza da ideologia dominante.

 Existe uma produção histórica abundante sobre a relação da Igreja com o Estado Novo e o mundo dos católicos que a questionavam. Nessa produção não se fala de teologia da libertação nem da libertação da teologia, mas existiram ambas com os limites que as circunstâncias eclesiais e políticas impunham, mas o conhecimento dos seus percursos tem de ficar para outra crónica.

Hoje, não posso esquecer que o Papa Francisco, o praticante e resistente da teologia da libertação e da libertação da teologia, instituiu o Dia Mundial do Pobre. Acontece neste Domingo. Se os pobres não estiverem na missa, é porque lha roubaram.



19. 11. 2017



[i] António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, Círculo de Leitores, 2017, pp. 331-332.
[ii]  Quem desejar conhecer o que era a prisão da teologia nos anos 50 do séc. passado, leia o impressionante Journal d’un théologien (1946-1956), de Yves Congar, Cerf, 2000
[iii] Summa Theologiae, q. III, Prólogo

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Brasil: Comboniano vence Prémio Empreendedor Social por trabalho em prisão humanizada

Valdeci António Ferreira, Diretor Executivo da «Fraternidade Brasileira de Assistência aos Encarcerados» (FBAC), é o vencedor da 13ª edição do «Prêmio Empreendedor Social».

Voluntário há mais de 30 anos, Valdeci Ferreira é fundador dos Leigos Missionários Combonianos do Brasil e fundador da «Assistência de Proteção aos Encarcerados» (APAC) de Itaúna, em Minas Gerais.

O projeto APAC visa disseminar metodologia inovadora de ressocialização de prisioneiros, que se propõe a recuperar o preso, proteger a sociedade, socorrer as vítimas e promover a justiça restaurativa...